O trabalho da fotógrafa e jornalista Kica de Castro: A beleza que insiste
Foto de Bruno Mancuso
Em vez de tratar a diversidade como exceção editorial, tema de campanha ou gesto pontual de inclusão, Kica desloca o centro da imagem. Pessoas com deficiência, mulheres fora dos padrões tradicionais, corpos marcados por diferenças físicas e trajetórias invisibilizadas passam a ocupar o lugar que historicamente lhes foi negado: o de protagonistas da estética.
No universo que suas fotografias constroem, não há tradução suavizada da diferença.
A deficiência não surge como metáfora de superação nem como recurso narrativo de inspiração. Surge como corpo inteiro: com desejo, presença, autonomia e linguagem própria. A cadeira de rodas não é apagada, integra a composição. A prótese não é disfarçada, participa da estética. O corpo não é ajustado para caber na imagem, é a imagem que se reorganiza para caber nele.
Esse deslocamento ultrapassa o campo artístico. Ele incide diretamente sobre uma estrutura silenciosa da moda: o capacitismo que define, há décadas, quais corpos podem ser desejáveis, publicáveis e reconhecidos como belos. Trata-se menos de uma ausência explícita e mais de um padrão naturalizado de seleção visual, que privilegia corpos jovens, simétricos e normativos, relegando a diferença ao campo da exceção, quando não da invisibilidade.
O trabalho de Kica de Castro rompe esse mecanismo ao retirar a deficiência da lógica da falta. Em seus ensaios, não há corpos a serem explicados. Há corpos que aparecem. E essa simples inversão reorganiza o sentido da imagem.
Mais do que representatividade, sua obra cria uma arquitetura da visibilidade. Quem pode ser fotografado como beleza? Em quais condições um corpo é autorizado a ocupar o espaço do desejo, da moda, do editorial? O que acontece quando a estética deixa de ser filtro e passa a ser presença?
Nos bastidores, essa mudança começa antes da câmera. O processo não é de adequação ao olhar externo, mas de construção conjunta de narrativa. Os modelos não são reduzidos a símbolos ou discursos; são sujeitos inteiros, com vaidade, inseguranças, histórias, potência e escolha. A fotografia não captura um conceito, acompanha uma existência.
É por isso que suas imagens raramente se encerram no primeiro olhar. Elas permanecem. Sustentam o tempo. Devolvem o olhar ao espectador e o colocam diante de uma pergunta que não se resolve com conforto: por que ainda é preciso estranhar certos corpos quando eles ocupam o lugar da beleza?
Em um mercado historicamente guiado por padrões restritos e por uma ideia rígida de perfeição, o trabalho de Kica não se limita a ampliar o repertório visual da moda. Ele desloca seus fundamentos.
E talvez esteja aí sua força mais radical: lembrar, com delicadeza e precisão, que a beleza nunca foi neutra, sempre foi uma escolha sobre quem pode existir diante dos nossos olhos.
Foto de Bruno Mancuso

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