Don Rafoni completa 10 anos transformando defumação em identidade para o hambúrguer no Sul de Minas
Criada no fundo de casa em Santa Rita do Sapucaí, hamburgueria desenvolveu método próprio que combina fumaça e fogo, incorporou ingredientes mineiros às receitas e chega aos dez anos com reconhecimento do prêmio Hambúrguer Perfeito
Um pequeno defumador no fundo de casa, muitos testes e uma pergunta: “E se fizéssemos exatamente o hambúrguer que gostaríamos de comer?” Foi assim que o casal Rafael Romancini e Rafaela Eliseu começaram, em 2016, a história do Don Rafoni, em Santa Rita do Sapucaí, no Sul de Minas Gerais.
Dez anos depois, a pergunta continua orientando uma casa que fez da defumação sua identidade, desenvolveu um método próprio de produção e passou a atrair consumidores de diferentes partes do Brasil e do mundo para uma cidade de pouco mais de 40 mil habitantes.
A história não começou com um plano de expansão ou com a intenção de criar uma rede. Rafael e Rafaela queriam desenvolver um produto diferente do que encontravam no mercado. Vieram os primeiros testes com carne, madeira, fumaça, temperatura e tempo. O pequeno equipamento deu lugar a defumadores maiores, processos foram alterados e receitas surgiram e desapareceram à medida que a técnica evoluía.
“O Don Rafoni nasceu do hambúrguer que a gente gostaria de comer. Desde o começo, nunca tivemos a preocupação de fazer o que todo mundo estava fazendo, mas de entender até onde poderíamos levar esse produto. Dez anos depois, essa pergunta ainda está presente todos os dias”, afirma Rafael Romancini, fundador do Don Rafoni.
Fumaça primeiro, fogo depois
Ao longo dessa trajetória, o Don Rafoni desenvolveu um método próprio no qual os hambúrgueres são defumados e, posteriormente, finalizados diretamente no fogo.
A produção começa, diariamente, horas antes de o primeiro cliente chegar. O fogo é aceso, o pit smoker é preparado e a carne passa pelos processos de moagem, tempero e defumação.
Madeiras como lenha de café e cerejeira são utilizadas para conferir características diferentes de aroma e sabor.
Molhos e acompanhamentos também são produzidos pela própria casa. Alguns ingredientes exigem horas de preparação: carnes submetidas a longas cocções permanecem no pit smoker antes de assumirem novas funções nas receitas.
Foi justamente aí que ocorreu uma das principais mudanças na trajetória da Don Rafoni.
Apesar do domínio das técnicas tradicionais de barbecue, Rafael e Rafaela decidiram que o protagonista continuaria sendo o hambúrguer. Brisket, cupim e outras carnes de longa cocção deixaram de ser necessariamente o produto final para se transformarem em componentes das receitas.
Um brisket preparado durante cerca de 12 horas, por exemplo, pode dar origem a uma geleia.
Carnes defumadas podem se transformar em ragù. O cupim passa a compor um sanduíche.
Assim, o barbecue passou a servir ao hambúrguer — e não o contrário.
“A defumação nunca foi pensada como um efeito ou simplesmente um sabor de fumaça. Existe uma construção que começa na escolha da carne e da madeira, passa pelo tempo e pela temperatura e termina no fogo. E tudo isso precisa fazer sentido quando você dá a primeira mordida”, explica Rafael.
Do barbecue à identidade mineira
A evolução técnica também provocou uma mudança na construção do cardápio.
Se no início havia uma inspiração mais direta na cultura do barbecue, com o passar dos anos a casa começou a buscar uma linguagem própria. Ingredientes e referências de Minas Gerais passaram a dividir espaço com as técnicas de defumação.
Queijos brasileiros, maxixe, ora-pro-nóbis e goiabada entraram nesse repertório ao lado de brisket, cupim, carnes maturadas e preparos de longa cocção.
A lógica deixou de ser reproduzir o que poderia ser encontrado em uma casa de barbecue de outro lugar e passou a ser perguntar o que um hambúrguer defumado criado no Sul de Minas poderia ser.
“Em algum momento entendemos que não precisávamos tentar reproduzir um lugar do mundo.
Somos de Minas. A nossa história aconteceu aqui. Então começamos a trazer isso também para os hambúrgueres”, conta Rafaela, fundadora e responsável pelo Relacionamento com o Cliente.
Até onde é possível levar um hambúrguer?
Um dos exemplos dessa busca é o PQP, sanduíche que concentra diferentes técnicas desenvolvidas pela casa ao longo dos anos.
A receita combina carne maturada por longos períodos em dry aging, defumação e finalização direta no fogo. O blend de Angus e Wagyu recebe elementos desenvolvidos a partir do próprio processo de defumação, entre eles caldo de brisket e gordura Wagyu.
Na montagem, entram ainda fior di latte, cheddar inglês, maionese trufada de alho negro, picles artesanal de maxixe e geleia produzida a partir de brisket submetido a aproximadamente 12 horas de cocção.
Mais do que reunir ingredientes, o sanduíche exemplifica a forma como o Don Rafoni desenvolve suas receitas: técnicas, carnes, acompanhamentos e molhos são pensados como partes de uma mesma construção.
Para Rafael, porém, nenhuma receita deve representar um ponto final. “O melhor hambúrguer que fizemos não deveria encerrar a busca. Ele precisa fazer a gente pensar no próximo. A pergunta é sempre: como conseguimos fazer melhor amanhã?”
Mais de 3 mil dias ao redor do fogo
A experimentação convive com outra ideia importante para a casa: a repetição.
São mais de 3 mil dias repetindo um ritual que envolve acender o fogo, preparar os equipamentos, trabalhar a carne, defumar, produzir molhos, acompanhar longas cocções, provar e corrigir.
A produção diária chega a aproximadamente 300 hambúrgueres, preparados frescos, e Rafael continua diretamente envolvido no processo de produção e defumação.
Essa combinação de repetição e experimentação ajudou a construir um público que ultrapassou os limites de Santa Rita do Sapucaí. Em 2026, o Don Rafoni já havia recebido visitantes de 301 cidades e 15 países. Apenas 7% do faturamento da hamburgueria vem de clientes da própria cidade.
Em vez de levar a marca aos grandes centros, a casa viu acontecer o movimento contrário:
consumidores passaram a pegar a estrada para experimentar seus hambúrgueres em Santa Rita do Sapucaí.
Reconhecimento aos dez anos
No ano em que completa uma década, essa trajetória também ganhou reconhecimento no Hambúrguer Perfeito. O Don Rafoni está entre as 25 hamburguerias classificadas para a etapa de revisita da premiação, sendo a única representante do Sul de Minas e uma das três mineiras selecionadas nessa fase. O evento de premiação acontece em 7 de outubro, no Memorial da América Latina, em São Paulo.
Para os fundadores, o reconhecimento tem um significado particular por acontecer sem que a casa tenha deixado a cidade onde nasceu ou abandonado o modelo de produção que construiu ao longo dos anos.
O objetivo, dizem, não é estar em todos os lugares, mas continuar criando algo pelo qual as pessoas considerem valer a pena viajar.
“Escolhemos continuar em Santa Rita, continuar próximos da produção e continuar acendendo o fogo todos os dias. Para nós, crescer nunca significou necessariamente ter mais endereços.
Significa conseguir fazer melhor aquilo que decidimos fazer desde o começo”, afirma Rafael.
De um pequeno defumador no fundo de casa aos grandes pits utilizados atualmente, muita coisa mudou em dez anos. A pergunta que deu origem ao Don Rafoni, porém, permanece praticamente a mesma. Como fazer um hambúrguer que valha a viagem — e fique na memória?
Sobre o Don Rafoni
Fundado em 2016 por Rafael Romancini e Rafaela Eliseu, em Santa Rita do Sapucaí, no Sul de Minas Gerais, o Don Rafoni é especializado em hambúrguer defumado. A casa desenvolveu ao longo de dez anos um método próprio que combina defumação e finalização no fogo e mantém produção diária de hambúrgueres, molhos e acompanhamentos. Seu cardápio reúne técnicas de barbecue, carnes de longa cocção e ingredientes e referências mineiras. Em 2026, o Don Rafoni havia recebido clientes de 301 cidades e 15 países. A hamburgueria está entre as 25 classificadas para a etapa de revisita do prêmio Hambúrguer Perfeito.
Serviço:
Don Rafoni – Smoke House
Av. João de Camargo, 120 – Vista Alegre – Santa Rita do Sapucaí - MG
De quarta a domingo, das 19h às 22h
Instagram: @donrafoni
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