O espetáculo das más ações
Por Débora Máximo
Vivemos um tempo em que as más ações parecem ter uma enorme capacidade de capturar nossa atenção. Basta observar o que ocupa as manchetes, as redes sociais e as plataformas de streaming. Crimes reais se transformam em séries, assassinos se tornam personagens principais e histórias de violência ganham documentários, filmes e temporadas inteiras. Casos que deveriam causar profundo incômodo passam também a ocupar o espaço do entretenimento.
Isso me leva a uma pergunta: o que acontece conosco quando passamos tanto tempo olhando para o pior do comportamento humano?
Não se trata de dizer que essas histórias não devam ser contadas. Muitas delas ajudam a compreender comportamentos, contextos sociais e acontecimentos que merecem ser conhecidos. A questão está na maneira como nos relacionamos com esse conteúdo e, principalmente, no motivo pelo qual ele nos atrai tanto.
Quantas vezes nós mesmos nos pegamos torcendo pelo vilão? Queremos que ele escape, que não seja descoberto e em alguns casos, chegamos até a sentir simpatia por alguém cujas atitudes condenaríamos na vida real
Quando acompanhamos um personagem durante horas, conhecemos sua infância, seus traumas, seus medos e suas justificativas. Essa proximidade pode mudar a maneira como enxergamos aquela pessoa. E aqui existe uma diferença importante, compreender alguém não significa justificar seus atos. Conhecer a história de quem causou o sofrimento não deveria apagar a história de quem sofreu.
Quando determinadas imagens, notícias e narrativas passam a fazer parte constantemente do nosso cotidiano, nossa reação a elas pode mudar. O que antes causava enorme espanto pode se tornar mais familiar. Não significa que deixamos de reconhecer a gravidade da violência, mas aquilo que vemos repetidamente pode já não provocar em nós a mesma reação.
E talvez isso não esteja apenas no que assistimos, está também na maneira como reagimos nas redes sociais. É fácil perceber como uma publicação sobre uma briga, uma traição ou uma atitude absurda rapidamente desperta comentários, discussões e compartilhamentos.
Enquanto isso, um vídeo mostrando um rapaz distribuindo cestas básicas pode receber muito menos atenção. E, algumas vezes, a primeira reação diante da boa ação ainda é a desconfiança: “Será que ele fez isso para ajudar ou para ganhar engajamento?”
É claro que ter senso crítico é importante, especialmente em um ambiente no qual exposição também pode ser uma estratégia. Mas há algo interessante nessa diferença de reação. Por que aquilo que é ruim parece despertar tão rapidamente a nossa curiosidade, enquanto uma boa ação, às vezes, precisa provar que é genuína para conquistar o nosso reconhecimento?
Talvez o extraordinariamente ruim simplesmente tenha se tornado mais capaz de disputar a nossa atenção do que o silenciosamente bom?
Aquilo que desperta nosso interesse ganha espaço, circula e permanece. Talvez estejamos vivendo uma dinâmica em que o trágico e o violento capturam nossa atenção com enorme facilidade e isso não acontece apenas diante das telas.
Outro dia ouvi uma mulher contar que, quando passa por um acidente de carro, sente vontade de parar para ver os acidentados. Eu não sei você, mas eu fiquei chocada fazendo cara de paisagem diante do relato. O exemplo pode parecer extremo, mas revela algo interessante: por que é tão difícil desviar o olhar diante de uma tragédia? Existe em nós uma curiosidade pelo inesperado, pelo perigo e por aquilo que rompe a normalidade. O que muda hoje é a quantidade de oportunidades que temos para alimentar essa curiosidade.
Talvez seja justamente aí que caiba uma reflexão sobre o nosso tempo. Se aquilo que choca naturalmente captura nossa atenção, o que acontece quando somos expostos repetidamente a esse tipo de estímulo?
Enquanto isso, uma parte muito menos ruidosa da realidade continua acontecendo, pessoas ajudando, acolhendo, cuidando, protegendo e fazendo o bem. Essas histórias talvez não nos façam parar o carro para olhar, nem interromper o que estamos fazendo para acompanhar cada detalhe. Mas isso não as torna menos importantes. Talvez o desafio esteja justamente em perceber que aquilo que mais chama a nossa atenção nem sempre é aquilo que mais merece o nosso olhar.
Divulgação
Débora Máximo é influencer e graduanda em Psicologia

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