A cegueira da acomodação
É comum ouvirmos frases como: “Meu filho não quer dar continuidade ao meu negócio”; “Estou há anos no mesmo emprego e nunca sou valorizado” ou “Meu relacionamento não muda.” Mas existe uma pergunta que quase nunca é feita: o que foi feito para que essa realidade fosse diferente?
Muitos pais desejam que os filhos assumam a empresa da família, mas nunca os ensinaram sobre o negócio. Nunca os convidaram a participar das decisões, a compreender os desafios ou a desenvolver interesse pelo que estava sendo construído.
Muitas pessoas sonham com um salário melhor, mas passam anos sem fazer um curso, desenvolver uma nova habilidade ou se preparar para oportunidades diferentes. Outras sofrem em relacionamentos que deixaram de ser saudáveis, mas continuam esperando que apenas o outro mude. À primeira vista, isso pode parecer apenas acomodação. Mas a Psicologia mostra que existe algo mais profundo acontecendo.
Nosso cérebro foi desenvolvido para economizar energia. Sempre que possível, ele transforma comportamentos repetidos em hábitos, pois isso exige menos esforço mental. É um mecanismo essencial para a sobrevivência. O problema é que esse mesmo mecanismo também nos leva a repetir comportamentos que já não produzem os resultados que desejamos.
Mudar exige muito mais do que vontade. Exige enfrentar a incerteza, aprender novas habilidades, abandonar velhos padrões e suportar o desconforto natural de quem está construindo um novo caminho. Por isso, permanecer onde estamos, mesmo insatisfeitos, costuma parecer mais seguro do que mudar.
Existe outro fenômeno amplamente estudado pela Psicologia, quando uma pessoa tenta, fracassa repetidamente ou acredita, durante muito tempo, que seus esforços não fazem diferença, ela pode deixar de agir, mesmo quando surgem oportunidades reais de mudança. Aos poucos, perde a confiança na própria capacidade de transformar a realidade e passa a acreditar que qualquer tentativa será inútil. Talvez seja por isso que tantas pessoas reclamem da própria vida, mas continuam repetindo exatamente os mesmos comportamentos. Não porque gostem de sofrer, mas porque mudar exige atravessar um período de desconforto antes que os resultados apareçam.
A boa notícia é que esse ciclo pode ser interrompido. A ciência mostra que pequenas mudanças consistentes ajudam o cérebro a reconstruir a sensação de capacidade e controle. Cada passo dado fortalece a confiança para dar o próximo. É assim que grandes transformações começam, não com uma mudança radical, mas com pequenas decisões repetidas todos os dias. Talvez, então, a pergunta mais import ante não seja: “Por que a minha vida não muda?” Mas sim: “Que comportamento eu continuo repetindo que mantém a minha vida exatamente onde ela está?”
Essa pergunta não serve para gerar culpa. Serve para devolver aquilo que nunca deveria ter sido perdido: a responsabilidade sobre a própria trajetória. Porque esperar que a vida mude sem mudar o próprio comportamento é como esperar uma colheita diferente plantando sempre as mesmas sementes.
Na maioria das vezes, a transformação não começa quando as circunstâncias melhoram. Ela começa quando nós mudamos.
Reprodução
Divulgação
Débora Máximo é influencer e graduanda em Psicologia


Nenhum comentário:
Postar um comentário