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08 maio, 2026

Competências invisíveis: o que a maternidade desenvolve e o trabalho não nomeia

 Competências invisíveis: o que a maternidade desenvolve e o trabalho não nomeia


Por Vivian Rio Stella*


Vivian Rio Stella - Divulgação



As minhas filhas me convocam para sair do meu mundo todos os dias.


E, nesse deslocamento, entre conversas no carro, passeios atravessados por imprevistos, fases que vão embora num piscar de olhos e outras começam, momentos de dar contorno e limites, eu aprendo, na prática, habilidades que o mundo do trabalho diz buscar, mas ainda reconhece pouco quando não nascem dentro dele.

 
Nos últimos tempos, vozes como as de Elisama Santos, Vera Iaconelli, Maria Homem; Dani Junco, Ruth Manus e Camila Antunes têm ajudado a trazer a maternidade para o centro dessa conversa. Não como idealização, mas como experiência concreta de desenvolvimento. Ainda assim, o debate costuma parar na valorização simbólica, e avança pouco na tradução prática dessas aprendizagens para o contexto profissional.

 
Porque o ponto talvez seja menos reconhecer e mais tornar visível.

 
No cotidiano, a maternidade exige leitura de contexto, priorização sob pressão, negociação constante e consistência ao longo do tempo. Não como exceção, mas como rotina. Uma conversa difícil com um filho adolescente pede escuta e firmeza ao mesmo tempo. Um limite precisa ser sustentado mesmo diante de resistência. Um dia inteiro pode precisar ser reorganizado em poucas horas.

 
São experiências que desenvolvem competências muito próximas das listadas pelo World Economic Forum — pensamento analítico, adaptabilidade, empatia, liderança. Ainda assim, raramente entram como evidência em avaliações, promoções ou processos seletivos.

 
Há um descompasso evidente. O que se aprende na maternidade é intenso, repetido, refinado. Mas permanece pouco visível porque não cabe na linguagem dominante de “projetos”, “entregas” e “resultados mensuráveis”.

 
E, quando tentamos nomear, muitas vezes simplificamos: “paciência”, “jogo de cintura”, “amor”. Palavras que dizem pouco sobre a complexidade do que está sendo exercitado.

 
Talvez por isso esses aprendizados sejam subestimados. Não por serem menores, mas por não estarem traduzidos.

 
E aqui há um ponto que merece atenção: nem tudo que desenvolve competência passa por cursos, certificações ou trilhas formais de aprendizado. Há experiências que formam pela intensidade, pela repetição e pela responsabilidade envolvida — e a maternidade é uma delas.

 
Isso não significa romantizar. A maternidade também cansa, sobrecarrega e expõe limites. Mas justamente por isso, ela produz um tipo de aprendizado que dificilmente se simula em ambientes controlados.

 
Talvez o desafio para as organizações não seja criar um novo espaço para falar de maternidade. Mas ampliar o repertório do que reconhecem como desenvolvimento.

 
Porque, no fim, essas competências já estão em circulação. Influenciam decisões, relações e formas de trabalhar todos os dias.

O que falta não é desenvolvimento.
É linguagem, visibilidade — e, sobretudo, disposição para reconhecer como experiência profissional aquilo que não nasceu dentro dos formatos tradicionais do trabalho.

 
*Vivian Rio Stella é doutora em Linguística pela Unicamp, pós-doutora pela PUC-SP e idealizadora da VRS Academy e participantes do TEDx Jundiaí. Colunista da revista Você RH e professora da Fundação Dom Cabral, Escola Aberje e de curso de comunicação na Audible/Casa do Saber, Vivian é reconhecida por sua abordagem humanista, crítica e contextual, que foca na comunicação para promover colaboração, respeito e diálogo nas organizações. Ao longo dessa jornada, já realizou palestras, workshops e consultorias para mais de 300 empresas de diferentes portes e setores

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Author Details

Livia Rosa Santana, tem formação em Turismo e Hotelaria, Culinária,Confeitaria, Teatro ( Atriz, Roteirista e Produtora), Jornalismo pela Faculdade Esamc, Locução de Rádio e Coach. . Trabalhou como Produtora e Coordenadora na cidade de Uberlândia (MG), representando o Iacan-Instituto de Artes e Cultura Alvaro Neto,. A empresa contem trabalhos reconhecidos em todo território nacional. Atualmente atua no jornalismo como CEO dos 35 portais e 5 revistas que é editora-chefe, trabalhou como assessora de imprensa de um agência de modelos, trabalhou como editora-chefe e assessora de imprensa da Revista CBTUR VIP, trabalhou na parte comercial do Jornal do Estado do Rio e Niterói News. Trabalha atualmente na sua empresa Topssimo Assessoria e assessora artistas famosos e empresas. Escreve para vários veículos de comunicação.

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