Herdeiros sem herança
Caminhar pelas ruas de uma capital europeia é - para muitos de nós - uma experiência que transcende o turismo; é um mergulho em uma atmosfera onde o tempo parece conversar com o presente. Entre ruelas de pedra, fachadas centenárias e monumentos que guardam segredos de milênios, o que nos encanta não é apenas a beleza estética, mas a sensação de pertencimento e continuidade.
Na Europa, a história não está trancada em museus, ela é um cenário vivo do cotidiano. Essa valorização do "ontem" cria cidades que convidam ao passeio, onde o simples ato de caminhar se torna um exercício de prazer e conexão cultural. No entanto, ao retornarmos, o contraste é inevitável e traz consigo uma pergunta incômoda: por que não sentimos o mesmo prazer ao caminhar pelo centro de nossas próprias cidades?
Essa inquietação revela falhas estruturais profundas no sistema de funcionamento e na gestão urbana do Brasil, mas também expõe uma ferida aberta na nossa alma coletiva, a rejeição sistemática pela própria cultura. Existe no Brasil uma espécie de "vazio de identidade", onde o que é nacional é frequentemente visto como inferior, tosco ou descartável.
Enquanto o europeu se orgulha de cada pedra de suas ruínas, a nossa sociedade muitas vezes olha para o seu patrimônio com indiferença ou desprezo, como se não tivéssemos uma história digna de nota ou uma identidade que mereça ser preservada. Esse desapego faz com que o centro histórico seja tratado como um "estorvo" ao progresso, e não como o alicerce de quem somos.
Essa desconexão cultural alimenta o abandono e a degradação que presenciamos. A primeira grande falha está na ausência de políticas públicas sólidas de preservação, mas ela é amparada por um corpo social que não se mobiliza quando um casarão colonial dá lugar a um estacionamento de concreto. Quando apagamos nossa arquitetura para copiar modelos estrangeiros descontextualizados, reforçamos a ideia de que não temos raiz. O resultado é um apagamento sistemático da nossa memória, o que sobra são centros urbanos descaracterizados, onde o cidadão não se sente em casa porque não vê ali o reflexo de sua própria trajetória.
Somada a esse abismo de identidade, há uma falha crítica no cuidado e na segurança pública. O encanto europeu está intrinsecamente ligado à percepção de que a rua é um espaço seguro e cuidado, projetado para o pedestre. No Brasil, o descaso com as calçadas e a iluminação precária criaram barreiras invisíveis que nos empurraram para dentro de shoppings, essas "cidades artificiais" que tentam simular uma ordem e uma estética que não conseguimos sustentar do lado de fora. O sistema brasileiro falha ao não compreender que uma cidade viva depende da ocupação humana e a ocupação humana depende de um povo que se reconheça e se orgulhe de sua nação.
Para que possamos, um dia, sentir em nossas cidades o mesmo prazer que sentimos ao caminhar por Lisboa ou Paris, é preciso mais do que reformas de engenharia. É necessário um resgate da nossa autoestima cultural. Precisamos de um sistema que priorize o urbanismo humanizado, mas que também eduque o olhar coletivo para o valor do seu próprio patrimônio. Afinal, a cultura não deveria ser um luxo apreciado apenas em solo estrangeiro, mas a força que nos faz querer, finalmente, habitar e proteger o coração das nossas próprias cidades.
Reprodução
Divulgação
Débora Máximo é influencer e graduanda em Psicologia

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