Por uma vida mais 'humana'
A indiferença que vemos hoje é, talvez, o maior sinal de uma sociedade que se perdeu entre o excesso de notícias e a falta de contato real. Muita gente sente que o mundo ficou mais perverso, mas a grande mudança não está só na maldade em si e sim no modo como olhamos para ela.
O que antes causava revolta, hoje acaba passando batido, como se o horror fosse apenas um barulho de fundo. Esse "não se importar" coletivo nem sempre é maldade; muitas vezes é um mecanismo de defesa. É uma proteção que criamos para não sofrer diante de tanta dor. É o que sentimos, por exemplo, naquele gesto comum de não abrir a janela do carro para dar uma moeda, um ato que mistura o medo, o cansaço e a vontade de deixar os problemas do mundo do lado de fora.
Isso acontece porque existe um limite para o quanto conseguimos sentir a dor dos outros. Somos a primeira geração que carrega no bolso todas as tragédias do planeta ao mesmo tempo, mas nossa mente não consegue acompanhar essa velocidade. Para não desmoronar emocionalmente, acabamos nos "desligando" da nossa capacidade de se colocar no lugar do outro. Essa defesa nos protege do estresse, mas nos torna observadores que estão ligados em tudo, mas não se sentem parte de nada. A crueldade, vista pela tela do celular ou pelo vidro fechado do carro, deixa de parecer real e vira apenas mais um dado ou um incômodo no meio do caminho.
Essa distância acaba criando pessoas que estão alheias à realidade. Quando nos acostumamos com o que é errado só para nos protegermos, a situação perde o senso de gravidade. Essa indiferença funciona como um escudo, ela protege o nosso emocional na hora, mas destrói a união entre as pessoas. Quando paramos de nos sensibilizar, perdemos o que nos torna humanos. Mais perigosa do que a crueldade que fere é a indiferença de quem apenas olha e não faz nada. É no silêncio de quem se cala e no conforto do nosso isolamento que as coisas ruins ganham força para continuar acontecendo.
A saída para a apatia não é a santidade, mas a consciência. É admitir que temos medo e que estamos cansados, mas decidir que, apesar disso, não aceitaremos o absurdo como algo normal. Quando escolhemos baixar um pouco a guarda e olhar para o lado com verdade, deixamos de ser apenas espectadores alheios para nos tornarmos, novamente, parte viva da humanidade. É nesse pequeno esforço de atenção que a crueldade perde terreno e a solidariedade volta a ter voz.
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