Movimento Modernista é referência viva para a Arquitetura
"Hoje valoriza-se uma estética autoral, mas muitas vezes essa estética nasce justamente da solução funcional, do detalhe construtivo e da materialidade", diz a arquiteta Dorys Daher (www.dgarquitetura.com.br), que nesta entrevista enfatiza a importância história do Movimento Modernista em sua área. Acompanhe:
O Movimento Modernista brasileiro ainda é uma referência viva na arquitetura atual? De que forma essa herança se manifesta nos projetos contemporâneos?
Sim. O Movimento Modernista das décadas de 1950/1960 segue como uma referência viva. Essa herança aparece na prioridade dada à clareza, à expressão estrutural, ao uso honesto dos materiais, ao diálogo com a paisagem e ao compromisso com o espaço público. Hoje, vemos esses princípios reinterpretados com novas tecnologias, materiais e preocupações ambientais, não como cópia formal, mas como fontes de reflexão sobre função, luz e escala.
Elementos como pilotis, plantas livres, brises e grandes vãos continuam relevantes hoje? Como os ressignifica diante das demandas atuais?
Continuam relevantes. Em projetos contemporâneos esses elementos viram ferramentas flexíveis: os pilotis liberam usos urbanos e conectam com os passantes no térreo; a planta livre permite espaços adaptáveis; os brises se transformam em fachadas técnicas com controle da luz solar; os grandes vãos hoje são viabilizados por detalhamento estrutural e soluções construtivas modernas. Essas questões passam por adaptar às demandas de acessibilidade, sustentabilidade e convívio contemporâneo.
A arquitetura modernista brasileira nasceu muito conectada ao clima e à paisagem. Essa preocupação com ventilação, luz natural e integração com o entorno segue como prioridade?
Sim. A preocupação com clima, ventilação e luz natural permanece prioridade. O modernismo trouxe uma consciência bioclimática que hoje se aprofunda com simulações energéticas, critérios de eficiência e soluções passivas combinadas a sistemas ativos mais eficientes. Integrar o entorno - vista, ventilação cruzada, sombreamento e orientação solar - continua sendo estratégia central para conforto e redução de consumo energético.
Nomes como Oscar Niemeyer, Lúcio Costa e Affonso Eduardo Reidy ainda influenciam a formação dos arquitetos? Como essa influência aparece na prática profissional?
Esses nomes ainda permeiam a formação, com são modelos usados como referências conceituais. Eles influenciam a ênfase na composição espacial, no desenho de espaços públicos, na escala humana e no papel social da arquitetura. Na prática, a influência aparece tanto em exercícios acadêmicos quanto em projetos que retomam princípios estruturais e urbanos, mas reinterpretados criticamente à luz dos desafios atuais.
O modernismo defendia a função acima da ornamentação. Em tempos de arquitetura autoral e estética marcante, esse princípio ainda se sustenta?
O princípio de função acima da ornamentação mantém-se relevante, porém passou por nuances. Hoje valoriza-se uma estética autoral, mas muitas vezes essa estética nasce justamente da solução funcional, do detalhe construtivo e da materialidade - ou seja, a "forma" continua sendo informada pela função. A ornamentação pura e desvinculada da técnica ou do contexto tornou-se menos aceita; busca-se beleza que resulte de intenções claras.
Como a arquitetura modernista dialoga com temas tão atuais como sustentabilidade, eficiência energética e responsabilidade ambiental?
O diálogo é natural: muitos princípios modernistas - economia formal, orientação solar, claridade estrutural - convergem com sustentabilidade e eficiência energética. No entanto, é preciso atualizar práticas: considerar ciclo de vida dos materiais, pegada de carbono, biodiversidade, gestão de água e economia circular. Assim, o modernismo fornece ferramentas conceituais valiosas, mas exige integração com tecnologias e políticas ambientais contemporâneas.
Na sua visão, o modernismo brasileiro foi mais do que um estilo, uma atitude cultural e social? Esse espírito ainda inspira a arquitetura contemporânea?
Sim. O modernismo brasileiro foi mais que um estilo; foi uma atitude cultural e social que aspirava democratizar o espaço e transformar a cidade. Esse espírito continua inspirando arquitetos comprometidos com habitação social, com projetos públicos e com o papel da arquitetura como intervenção coletiva. Hoje essa atitude aparece em práticas que combinam idealismo com exequibilidade.
Quais características do modernismo considera atemporais e quais precisaram ser superadas ou adaptadas ao longo dos anos?
Atemporais: a clareza espacial, a ênfase na luz, a honestidade estrutural e o compromisso com o coletivo. Precisaram ser superadas ou adaptadas: a universalidade acrítica (projetos "prontos" para qualquer lugar), o desprezo por contextos culturais/locais e o uso de materiais ou soluções com baixo desempenho ambiental. A atualização passa por manter princípios essenciais enquanto se afina a sensibilidade ao lugar, à cultura e à sustentabilidade.
A arquitetura residencial atual no Brasil ainda carrega traços modernistas? Poderia citar exemplos perceptíveis no cotidiano urbano?
Ainda carrega traços modernistas, como plantas mais abertas, grandes envidraçados, varandas integradas, uso de brises e fachadas que privilegiam orientação solar. No cotidiano urbano isso aparece em conjuntos de edifícios dos anos 1950/1970 que continuam habitando nossas cidades e em residências atuais que reinterpretam esses elementos para conforto térmico e fluidez espacial.
Que lições do modernismo brasileiro acredita que as novas gerações de arquitetos não podem deixar de absorver?
Entre as lições que as novas gerações não podem perder estão: a prioridade pelo bem-estar coletivo; o rigor compositivo; a integração com clima e paisagem; o respeito pela economia de meios (fazer muito com pouco); e a coragem de propor soluções públicas e sociais. Mas também é essencial que os jovens arquitetos leiam o modernismo criticamente, aprendendo com seus acertos e corrigindo suas falhas, especialmente no que toca à sustentabilidade e à sensibilidade cultural.
Reprodução
Arquitetura característica do Movimento Modernista dos anos 1950/1960
Divulgação
Arquiteta Dorys Daher

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