O maior ato de resistência hoje é parar
O indivíduo contemporâneo vive sob um paradoxo fascinante, nunca tivemos tanto acesso à informação, a ferramentas de produtividade e a promessa de liberdade pessoal e no entanto, nunca nos sentimos tão cansados, inquietos e fundamentalmente ansiosos. A ansiedade não é mais uma reação a um perigo iminente, mas um zumbido constante que acompanha o scroll infinito e a caixa de entrada abarrotada.
Este não é um problema de falta de gerenciamento de tempo, é uma crise existencial gerada pela nossa cultura do desempenho. A ansiedade de hoje vem de uma mudança simples, antigamente alguém de fora (o chefe, a lei) dizia "não faça isso". O controle era externo, hoje somos nós que dizemos para nós mesmos: "Faça, seja melhor! Alcance o sucesso!" O controle é interno.
Nós nos tornamos o explorador e o explorado ao mesmo tempo. A gente se cobra sem parar e é isso que nos cansa e nos deixa ansiosos. Não estamos mais explorando recursos naturais, mas explorando a nós mesmos em uma busca incessante por otimização e sucesso. A liberdade de "poder fazer" tudo o que se deseja empreender, aprender cinco idiomas, ter um corpo escultural, ser um pai presente e um profissional de destaque, torna-se uma coerção totalitária. O fracasso em atingir qualquer um desses ideais é interpretado como uma falha pessoal e não como uma limitação sistêmica: o esgotamento da positividade.
Essa cultura exige um excesso de positividade. Não há espaço para a negatividade, para a dúvida ou para o tédio. A vida é apresentada como um projeto de autoaperfeiçoamento contínuo. Se você está cansado, o problema é sua dieta ou a falta de meditação. Se você não está feliz, é porque não está manifestando a realidade corretamente. Se você não é produtivo, é porque não acordou às 5 da manhã.
Essa recusa em aceitar a negatividade e o limite humano leva ao que pode ser chamado de "infarto psíquico", o burnout e a depressão. Estas não são meras doenças individuais, mas patologias da positividade e do excesso. O indivíduo se esgota não por uma guerra externa, mas por uma autoviolência silenciosa, ao se impor uma carga de trabalho e expectativas que nenhum ser humano pode sustentar.
Se a doença da nossa era é a hiperatividade e a aceleração, o antídoto está na lentidão e no ócio. Não o ócio como preguiça, mas como tempo livre de propósito utilitário.
A única forma de confrontar a ansiedade crônica e a exaustão da performance é por meio de uma revolução do tempo. É preciso coragem para recusar a próxima notificação, para valorizar o tédio que é o momento em que a mente, livre de estímulos, pode enfim, se reconectar consigo mesma e para desistir da corrida infinita da otimização.
Somente ao recuperarmos o direito ao não fazer e ao contemplar, podemos resgatar o sentido de uma vida que está sendo consumida pelo seu próprio sucesso. O maior ato de resistência hoje é parar.


Nenhum comentário:
Postar um comentário